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Diana Reis é advogada e sócia-fundadora da Reis & Associados. Enquanto profissional, assume que nunca se sentiu discriminada por ser mulher, mas retrata várias situações – sociais e profissionais – onde a desigualdade entre os géneros é evidente e que urge corrigir.

Desde sempre, a luta das mulheres pelo direito à profissão e a uma carreira reconhecida tem-se feito de resiliência e esforço. No que respeita à sua experiência, enquanto advogada, como avalia o percurso, até ao momento? O facto de ser sócia-fundadora da Reis & Associados permitiu-lhe exercer advocacia de uma forma diferenciada?

O percurso tem sido lento, embora progressivo. A advocacia foi, durante muito tempo, predominantemente masculina. Exemplo disso é o facto de, em 96 anos de existência, a Ordem dos Advogados só contar com três mulheres a exercer o cargo de Bastonária, incluindo a atual. A abertura do nosso escritório permitiu-me dar expressão às minhas inspirações pessoais e às da equipa. No exercício da profissão nunca tive motivos a apontar no que concerne ao tratamento. Creio que o maior desafio com que nos debatemos enquanto mulheres e advogadas é a conciliação da vida profissional e familiar.

Que análise faz desta abertura da área jurídica e como avalia a presença de mulheres no Direito como forma de trazer novas perspetivas à área?

A representatividade feminina em cargos de liderança era uma inevitabilidade. Em Portugal, segundo os censos de 2021, dos 10.343.066 de habitantes, 5.422.846 são mulheres. Aliás, é meu entendimento pessoal que foi precisamente este crescimento da população feminina que alavancou uma maior consciencialização da representatividade feminina em cargos de liderança nesta (e noutras) área. A presença de mulheres no Direito como forma de trazer novas perspetivas à área não tem tanto que ver com a circunstância de ser mulher, mas sobretudo com o facto de ser mulher nos tempos atuais e a forma de ser e estar da mulher atual. Não creio que a principal distinção seja o pragmatismo, mas antes sim a organização e estruturação, a atualidade e a capacidade de pensar um mesmo assunto em diversas vertentes ou diversos assuntos em simultâneo.

A maioria dos parceiros e advogados estagiários da Reis & Associados são mulheres. Que vantagens tem em trabalhar com uma equipa maioritariamente constituída por mulheres?

Partilhamos as mesmas necessidades e anseios, o que facilita o entendimento e dinâmicas, que são muito mais informais. Somos muito responsivas e entreajudamo-nos de forma espontânea. O nível de comprometimento é
elevadíssimo e isso é altamente benéfico para a equipa e parcerias, a par da facilidade de adaptação aos contextos e situações. Somos muito atentas umas às outras, praticamente como cuidadoras umas das outras.

Uma notícia recentemente divulgada coloca Portugal em 15º lugar entre os 25 países-membros da UE que foram analisados num estudo do Eurostat sobre a disparidade salarial ainda existente. Que análise faz à sociedade portuguesa atual? Antecipa que a mesma esteja num caminho de equilíbrio das desigualdades, ou não?

Não antecipo que se esteja num caminho de equilíbrio das desigualdades. As mulheres representam metade da força de trabalho, no entanto ainda ganham menos 15,8% do que os homens, o que corresponde a 58 dias de trabalho não pago, a que acresce todo o trabalho não remunerado prestado em casa. A desigualdade, antes mesmo de se repercutir na disparidade salarial, começa logo na preferência dada aos homens no recrutamento profissional, segue pela imposição de limites à progressão na carreira e pela saída precoce do mercado de
trabalho.

Autora: Dra. Diana Reis

Licenciada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (pré-Bolonha). Distinguida com o Prémio “3% Melhores Alunos” da Universidade de Coimbra.